Algum tempo atrás recebi um e-mail com a estranha pergunta:
"Há um tijolo seu aí para tomar cerveja?"
Para além do fato de que, que eu me lembre, nunca passei ao lado de construções que deixam tijolos na rua, destes que você pode levar para casa para tomar cerveja ou improvisar uma churrasqueira (e, sim, "pode" levar para casa, porque brasileiros podem fazer o que querem), não, eu não tenho um tijolo aqui. As construções, por sua vez, parecem que já vem rebocadas, e o mesmo vale para prédios abandonados.
Mas a lembrança do meu tijolo e de muitas coisas que ele viveu comigo me fez pensar também como é fácil se emocionar com aquilo que a gente conhece. A menção a um tijolo, a uma ida ao mercado na qual se compra pão de forma e melão, a um camarão num dia de chuva, a uma jarra de suco da yoki ou a dois minutos legais que se tenha passado são coisas que parecem absolutamente banais, mas cuja lembrança remete a uma coisa de que eu gostava e que não existe mais. Ou melhor, remete a algumas coisas de que eu gostava e que não existem mais.
Num dia, pouco depois de ter recebido este e-mail, viajei. Fui como um lobo na estepe, um homem-urso, sabendo que não os era. Por isso também fui como um menino que se diverte ao andar morro acima sozinho, debaixo de chuva porque não tem lugar pra se esconder; como um menino que reconhece lugares pelos quais já passou; como um menino que não se planeja, fica com fome e tem que comer correndo em qualquer MacDonalds e depois correr pra plataforma de trem.
Nesse mesmo dia, cheguei de volta em Frankfurt e fui ao teatro. Um risco. Peça em alemão, traduzida do russo, teatro não tem legenda... E aqui tem aquela coisa: não são notícias no rádio o que você vi ouvir; não são notícias na televisão o que você vai ver; não são coisas que se explicam por si mesmas; e não são coisas frias. Estamos no teatro, afinal.
Desde que eu comecei a estudar alemão mais a sério, sempre tentei ouvir músicas e ver filmes, mas com a intenção de treinar, aprender. E sempre perdi o lado artístico da coisa. E desta vez, no teatro, justo no teatro, quem diria, no teatro com todas as suas dificuldades, pela primeira vez me emocionei com algo que vi em alemão. Fiquei arrepiado e senti vontade de chorar sem nenhuma relação com o português. Me emocionei com algo que me foi mostrado em alemão. E a sensação é incrível, a de se sentir capaz de algo, depois de tanto tempo ralando.
Claro, havia imagens, havia música. Claro, depois disso já houve novos tropeços e pioras. Mas a emoção aconteceu. Ainda não é uma frase como "Há um tijolo seu aí para tomar cerveja?" e ainda não é um caminho sem volta. Mas aconteceu.





