terça-feira, 15 de maio de 2012

É isto a novidade?

Algum tempo atrás recebi um e-mail com a estranha pergunta:

"Há um tijolo seu aí para tomar cerveja?"

Para além do fato de que, que eu me lembre, nunca passei ao lado de construções que deixam tijolos na rua, destes que você pode levar para casa para tomar cerveja ou improvisar uma churrasqueira (e, sim, "pode" levar para casa, porque brasileiros podem fazer o que querem), não, eu não tenho um tijolo aqui. As construções, por sua vez, parecem que já vem rebocadas, e o mesmo vale para prédios abandonados.



Mas a lembrança do meu tijolo e de muitas coisas que ele viveu comigo me fez pensar também como é fácil se emocionar com aquilo que a gente conhece. A menção a um tijolo, a uma ida ao mercado na qual se compra pão de forma e melão, a um camarão num dia de chuva, a uma jarra de suco da yoki ou a dois minutos legais que se tenha passado são coisas que parecem absolutamente banais, mas cuja lembrança remete a uma coisa de que eu gostava e que não existe mais. Ou melhor, remete a algumas coisas de que eu gostava e que não existem mais.

Num dia, pouco depois de ter recebido este e-mail, viajei. Fui como um lobo na estepe, um homem-urso, sabendo que não os era. Por isso também fui como um menino que se diverte ao andar morro acima sozinho, debaixo de chuva porque não tem lugar pra se esconder; como um menino que reconhece lugares pelos quais já passou; como um menino que não se planeja, fica com fome e tem que comer correndo em qualquer MacDonalds e depois correr pra plataforma de trem.

Nesse mesmo dia, cheguei de volta em Frankfurt e fui ao teatro. Um risco. Peça em alemão, traduzida do russo, teatro não tem legenda... E aqui tem aquela coisa: não são notícias no rádio o que você vi ouvir; não são notícias na televisão o que você vai ver; não são coisas que se explicam por si mesmas; e não são coisas frias. Estamos no teatro, afinal.





Desde que eu comecei a estudar alemão mais a sério, sempre tentei ouvir músicas e ver filmes, mas com a intenção de treinar, aprender. E sempre perdi o lado artístico da coisa. E desta vez, no teatro, justo no teatro, quem diria, no teatro com todas as suas dificuldades, pela primeira vez me emocionei com algo que vi em alemão. Fiquei arrepiado e senti vontade de chorar sem nenhuma relação com o português. Me emocionei com algo que me foi mostrado em alemão. E a sensação é incrível, a de se sentir capaz de algo, depois de tanto tempo ralando.

Claro, havia imagens, havia música. Claro, depois disso já houve novos tropeços e pioras. Mas a emoção aconteceu. Ainda não é uma frase como "Há um tijolo seu aí para tomar cerveja?" e ainda não é um caminho sem volta. Mas aconteceu.


sábado, 5 de maio de 2012

É isto?

Leipziger Lover

(link para a música de despedida)

"Would you please take back the hope
that you been feeding me so long?"


É isto a frieza?

Sobre a arquitetura stalinista de Leipzig e o seu presente comunista, há algo que eu talvez não consiga descolar do pano de fundo ideológico, mas que comentarei assim mesmo.

Com toda aquela estória de que a ditadura e os comunistas procuram traduzir a ideia de igualdade também por meio do cotidiano, e não apenas pelas condições econômicas, eles teriam construído horríveis conjuntos habitacionais nos quais a individualidade das pessoas desapareceria frente ao coletivo. Por isso as moradias seriam todas iguais.

É claro que isso levou à formação de áreas monótonas na cidade, em que, possivelmente, aqueles que ocupam estas moradias efetivamente sintam-se como membros do número de habitantes de um tal prédio, e não como proprietários de uma moradia que expresse a sua personalidade.


O problema, como sempre tem sido, é a passagem para um sistema capitalista que, em sua avidez para ocupar os espaços aos quais não havia chegado antes faz com que tudo o que fosse cinzento e homogêneo desmanche-se numa nuvem de neon. Aqui se trata do neon das luzes de mercados, galerias e lojas de marcas internacionais que transformam o centro histórico da cidade em um shopping center a céu aberto, com faixas de cadeias de fast food, roupas, móveis e jóias penduradas em construções de séculos de idade.
 
Como, porém, não só os humanos envelhecem, estas construções são, em sua maioria, escurecidas pela chuva, neve, poeira e tudo o mais, o que marca um contraste ainda mais estranho com o carnaval kitsch promovido pelo comércio. Mais que isso, o bombardeamento promovido por estas empresas acaba por reproduzir a mesma lógica de negação da individualidade, já que as promoções não são feitas visando públicos específicos, mas tudo é para todos, ainda que isto seja uma constatação que não precisa ser feita no mundo pós-comunista.

Neste clima, no entanto, olhar novamente para os prédios comunistas acaba revelando que, passados alguns anos, se há algo de acolhedor por aqui, talvez esteja justamente ali.


É isto a história dos vencedores?

Como já foi dito antes, Leipzig é uma cidade que passou 40 anos do século XX sob ditadura. Em seu caso, foi a ditadura de estado do Partido Socialista Unificado da Alemanha, uma ditadura promovida em nome do comunismo mas que, naturalmente, foi tão somente mais um dos horríveis capítulos entre as diversas tragédias que constituem a história.

Interessante neste caso, é que as ditaduras comunistas, especialmente aquelas instaladas na Europa oriental são regularmente associadas não apenas à supressão de liberdades individuais e à perseguição de opositores, mas também à falta de criatividade e à tentativa de forçar a igualdade entre os cidadãos por meio de medidas como a uniformização da sociedade desde a escola até os empregos, passando por salários e partidos únicos. Daí que as ditaduras stalinistas como a da Alemanha oriental acabam sendo mostradas como governos que transformaram os países em lugares cinzentos e repetitivos. Neste caso, a arquitetura, é claro, acaba sendo um dos exemplos mais visíveis de como esta igualdade forçada, que precisa ser expressa de tal modo que grude no imaginário dos cidadãos, marca o lugar, mesmo trinta anos após o fim da ditadura - afinal, não se pode simplesmente derrubar todos os prédios iguaizinhos construídos pelos comunistas; isso seria, aliás, a mesma socialização da destruição.


Para além do fato de que os automóveis são bisonhamente os mesmos que no Brasil (onde, por sua vez, são todos iguais), o que vale a pena notar é que, novamente pensando em como este lugar parece ter tentado lidar com sua história recente, a "mesmerização" da imagem que se tem dos tempos da ditadura talvez também faça parte daquela tentativa de correr atrás das raízes germânicas que, obviamente, só puderam deixar marcas no oeste. Sem qualquer tipo de "Ostalgia", uma das coisas que sempre ouvi sobre o período de unificação da Alemanha é que, a despeito das imagens de euforia durante a destruição do muro de Berlim que nos chegaram pela TV, muitos alemães orientais e ocidentais não viam com tanto otimismo a onda vitoriosa do oeste.

Pode ser que um dos motivos para isso seja exatamente a tentativa de fazer da Alemanha este país no qual não haveria espaço para o passado comunista da parte oriental do país. Com certeza o exemplo mais escabroso que tive foi, ao visitar o Fórum Histórico Contemporâneo de Leipzig, instituição pública financiada pelo governo alemão, me deparar com uma sessão que mostra como seria a vida da alemã oriental média e do alemão oriental médio na década de 1960. O tom, espalhado por toda a sessão, em forma de casa, era de estranhamento. Uma televisão de tubo, um rádio daqueles do desenho do pica-pau, um sofá com estampa de flores, quadros com fotos da família pendurados na parede, estantes com livros, e tudo o mais que remete à imagem de vida em preto e branco. Algo que beira o desonesto, uma vez que procura mostrar como risível a imagem da família alemã oriental quando, me parece, uma TV de tubo, um rádio pica-pau, um sofá de flores, quadros conservadores e um verniz intelectual talvez fossem bastante comuns, durante os anos 1960, na casa de famílias da ... Alemanha Ocidental!

Ora, fosse eu um morador de Leipzig ou qualquer outra cidade do leste, não ficaria contente com a tentativa de me fazerem parecer um estranho quando tudo o que tentei foi ser igual. Mais que qualquer baboseira sobre as vantagens do comunismo stalinista, talvez o sentimento de pertencimento ao seu próprio passado, que estava prestes a ser destruído, é que tenha feito com que alguns alemães orientais (e ocidentais) tenham ficado com o pé atrás durante a unificação.


quarta-feira, 25 de abril de 2012

É isto o pós comunismo?

Quando descobri que seria mandado para Leipzig não sabia nada sobre sua história - como, aliás, hoje sei que ainda não estou nem perto de saber. Assim, olhei no mapa da Alemanha para saber onde ficava exatamente a cidade onde iria passar o inverno aprendendo alemão e, como ela fica no leste, foi o bastante para povoar minha imaginação com o caráter pós-stalinista de um lugar que se abriu para o mundo que eu conheço após algumas décadas de ditadura que supostamente instalaria aquilo que eu desejo. Para um estudante de sociologia era um prato cheio, já que representava a oportunidade de conhecer uma cidade que vivenciou - e certamente ainda vivencia - a passagem da versão falida do comunismo para o inerentemente falido capitalismo.

Logo que cheguei, pois, uma das primeiras constatações foi a de quanto esta situação propicia aquilo que se pode chamar de um humos pós-comunista meio involuntário. Afinal, as lembranças das obras do comunismo stalinista ainda estavam bastante sólidas no lugar. E para aqueles que duvidam, basta bater a cabeça em uma porta para ver se é sólida, ou não.


No entanto, e isto é algo que não surpreenderia pessoas espertas, as coisas em Leipzig eram mais antigas do que 1945, como notaria qualquer um avisado de que a cidade tem um nome em latim, Lípsia. Bem mais antigas, para ser exato. Isto porque, sem exatidão nenhuma, dá pra situar o reconhecimento Leipzig como a cidade mais importante da região ainda no século onze, que eu gosto de escrever XI nos meus cadernos. Isso significa, é claro, que me deparei com uma cidade que tinha, por baixo, dez séculos de história mas que na minha imaginação era marcada por apenas 40 destes, o que, de fato, revelou-se bastante acertado. E isto, por si só já é digno de nota (ambas as coisas...).

Ocorre que esta última situação é o primeiro indício de que algo não vai bem, uma vez que a negação do passado recente parece ser mais importante do que os últimos dez séculos. Obviamente aqui não é o caso de querer a idealização destes dez séculos, mas de notar que o que uma ex-grande cidade da Alemanha Oriental (que já era grande antes de ser parte da Alemanha Oriental) faz com sua história durante a ditadura não é um trabalho de resgate da memória, mas sim de expurgo do que aconteceu, a fim de se juntar à nova e poderosa líder da união europeia, a Alemanha unificada. E, claro, não deixa de ser irônico o fato de que a memória do stalinismo também acabou vitimada por expurgos.

Entre os diversos fatos que indicam a opção por este caminho, talvez nada seja tão simbólico quanto o fato de que se busca uma identificação a todo custo com a história dos símbolos do germanismo, como a poesia de Goethe e a música de Wagner. Daí a constante lembrança de que o primeiro estudou em Leipzig (e lá teria escrito o Fausto) e o segundo nasceu ali. E pra quem duvida, isto é lembrado até em guard-rails de obras de trânsito.


O que chama a atenção, então, é como quatro décadas de ditadura acabaram marcando o lugar, que se orgulha de sua luta pela democracia, mas que também procura, numa via de mão dupla, mostrar que Lenin e o comunismo não servem para nada mais que fechar casas já abandonadas enquanto Wagner e a tradição alemã são reivindicados como parte do passado que não se deixou conhecer devido à ditadura.

E é engraçado notar como duas placas despretensiosamente alocadas com o mesmo objetivo, servir de porta ou parede, revelam tanto sobre as pretensões de uma cidade que, a despeito de dez séculos de tradição, parece preferir integrar-se à história vencedora dos últimos trinta anos.

domingo, 22 de abril de 2012

É isto a crise populacional européia?

Pô, e a aí fui comer uma mexerica - que tinha gosto de açúcar cristal - e descobri que em nenhum, nenhum!, dos 18 gomos tinha uma semente. Depois os europeus reclamam que a população não cresce mais...



PS: Não tirei a foto na hora e aí vai uma de google, mas é assim mesmo, não tem semente, haha!

Ich habe eine Frage!

Diálogo real entre um brasileiro e uma egípcia, traduzido do inglês:

B(brasileiro) - Aprendi uma palavra em árabe!

E (egípcia) - Qual?

B - "Bat"!

E - "Bat"? Que é isso?

B - É pato!

E - Ah...é que não deu pra entender direito.

B - É que o cara que me ensinou não fala o pê direito...

E - É que em árabe a gente não tem a letra pê (Nota: em inglês, pi)

B - E como vocês inventaram a matemática se vocês não tem π ?

Tchãs!

É isto o acesso à cultura?

No começo é o aviso de que não se deve baixar músicas e filmes e tudo o mais na Alemanha, devido às rígidas restrições impostas pelos engraçadinhos que detêm os direitos autorais - engraçadinhos mesmo, já que eles adoram brincar de sopa de letrinhas: aqui a sopa é de ovos, já que os caras se chamam GEMA.

Mas, beleza, é só ir lá no vocêtubo e deixar rolando a música. É chato, porque você tem que ir lá e escolher uma música depois da outra, ao invés de ligar seu player e esquecer de tudo, mas rola. Aliás, é bom, já que assim posso fazer uma coisa que parece a mais normal do mundo e com a qual eu não me acostumei: ficar assistindo vídeos (Aliás, não é engraçado como o termo "assitir um vídeo" perdeu sua dinâmica específica e passou a ser pensado como uma característica própria do youtube? Isso é uma coisa que sempre me impressionou, a forma como os termos ganham novas associações comerciais devido à prática comum de associá-los a alguma coisa particular, ainda que isto seja somente uma construção social. Tá, tá, tudo é uma construção social, mas parece que agora você só pode ver um vídeo no youtube. Ou era, sei lá. De repente com essa onda de celulares e iPod e iPad e sei lá o que mais as coisas mudaram e eu ainda nem sei. Afinal, se mudaram a mensagem chega pelo facebook, acho...). Mas, enfim, chega de ressentimento e tranquilidade, porque também a opção youtube é proibida aqui, pois se você tenta ver um vídeo aparece a mensagem de que "Não, amigo, esse vídeo não pode ser exibido porque a GEMA não concedeu direitos".



Bom, pelo menos eles traduzem o aviso.

O efeito colateral é que não me acostumarei com o youtube. Mas aí vem a opção ouvir rádios online, né? A rádio do uol, por exemplo, deve pagar pelas músicas e pode exibí-las, certo? Não! Ó lá o aviso de que você tá fora do Brasil e aí as leis são outras, ó:


Mas resta a opção grooveshark, sempre bom, tudo o mais. E sabe o que é pior? Ele funciona, hahaha! Porque é uma rádio online que se financia apenas por quem quer pagar e ter mais coisas, além de ter um certo contato com as gravadoras. Até ontem:




Valeu GEMA, valeu mesmo! E não pense que isto é só um pequeno draminha de estudante classe média burguês mimado. O meu caso é. Restringir o acesso à música e a todas as outras artes é um crime e uma filha da putagem sem tamanho.

É isto a exclusão?

Sussurar, cochichar e fazer piadas entre amigos durante as aulas sempre foi um motivo de orgulho - pelo menos desde a época em que o orgulho poderia referir-se a algo que não me envergonhasse. Isto porque era um sinal duplo: por um lado era o sinal de que nenhuma hierarquia, como a do professor, era sagrada; por outro lado, era o símbolo de que com um bom uso da língua e da comunicação os melhores efeitos poderiam ser alcançados.

Este último ponto é tanto mais importante quando se tem orgulho da maneira de falar sua língua. E, me desculpando por insistir no tema, a relação que tenho como português não é, por ora - e talvez nunca seja -, a mesma que se pode ter com outras línguas quando se fala por meio de códigos e sinais. De modo direto, quando as variações da língua, as gírias, são usadas, é difícil sentir-se tão à vontade com outra língua, já que as expressões mesmas são diferentes. Ou alguém acha que falar para um inglês que você está "taking wave out" (tirando onda) é a mesma coisa que no português?

Daí que, numa classe com pessoas que falam a mesma língua, a sensação de abandono é enorme, especialmente para um sujeito arrogante e orgulhoso, naquele sentido do uso que consegue fazer do português. Mais que o abandono, a sensação de desamparo e incompetência, é enorme. Tanto maior quando os colegas de sala parecem ser exatamente aquilo que os antigos colegas eram, pessoas capazes de, com uma palavra, um comentário ou uma referência, indicar o tema para minutos de risadas. De novo colocando em termos bem simples, o idioma é o limite da piada interna.

Quando as pessoas têm dificuldades para dar o sentido a esta piada, o limite da língua é ainda mais claro.

E quando o cara se acostumou a participar da piada, é decepcionante sentir-se excluído de algo que parece ser aberto a todos, desde que os critérios sejam preenchidos. No meu caso da piada, bastaria conhecer uma língua como o árabe. Em outros casos, como cruzar uma fronteira, por exemplo, bastaria não ser árabe.

Me parece muito injusto.




PS: E os amigos do Brasil, com quem uma palavra vale mais do que mil imagens entenderão o que é isto!

É isto o estranhamento?

O bom e velho Belchior dizia conhecer seu lugar, mesmo estando a muito tempo longe de casa. Eu que estou a bem pouco tempo por aqui e devo ser muito menos esperto do que ele - ainda que use bigode de vez em quando - sei menos ainda do que ele.



E, sem surpresa nenhuma, longe de casa sei ainda menos do que eu saberia lá nos trópicos. Talvez por isso eu me sinta tão a vontade em falar sobre coisas que eu não sei, especialmente sobre o meu país, porque eu posso até saber bem pouco, mas pelo menos eu vivi lá, e aí posso narrar as coisas do jeito que eu as entendo. Isso é muito diferente do que acontece aqui, já que, antes de mais nada, nunca vivi nada na Alemanha e nem sei como as coisas funcionam. Uma pedra no meu caminho pode ser qualquer coisa, que pode ser uma pedra no meio do caminho.

A primeira coisa com a qual sente-se este tipo de dificuldade, é claro, é a língua, pois é uma sensação horrível e desesperadora a de que tudo que se faz é antes intuitivo do que consciente. Mas, com o tempo, mesmo o fazer coisas de modo intuitivo começa a dar um certo orgulho, porque parece que já não se está tão perdido: parece que se aprendeu algo: correr para pegar um trem antes de comprar a passagem enquanto se procura o adesivo de que ali dentro do próprio trem há uma máquina de bilhetes significa que já se aprendeu, ao menos, que existem estas máquinas, que existe um adesivo avisando sobre isto, que se pode apertar um botão para abrir a porta do trem... E tudo isso pode-se aprender só observando, ou seja, sem trocar uma palavra com um nativo, o que talvez signifique que o problema da língua pode mesmo ser contornado pela atenção.

O que é uma pena, afinal, dada a enorme riqueza que se perde nisso. Um dos grandes exemplos disso, novamente é claro, é a língua. Daí que uma das mais interessantes e decepcionantes experiências que ocorreram foi a leitura de um poema. Num seminário na sala sobre algo de meu país resolvi falar sobre o poeta que era funcionário público, Carlos Drummond de Andrade, e ler uma tradução para o alemão de "E agora, José?". Qual ingenuidade!

O quê, afinal, significa "José" para não brasileiros? O quê, afinal, significa a ideia de ser funcionário público para não brasileiros? O quê, afinal, significa viver em busca de algo para pessoas que são não brasileiros? E, afinal, o quê significa o próprio ser "não-brasileiro" quando todos os que não são brasileiros o são?

Em meio a tudo isso, para mim, foi significativo ler "E agora, José?" em público e não compartilhar emoções ou ouvir um disco do Belchior e não poder discutir com ninguém se ele é só um louco ou só um gênio, pois, assim como no trem, a própria língua foi o bastante para nos jogar de novo na posição do estrangeiro.