quarta-feira, 25 de abril de 2012

É isto o pós comunismo?

Quando descobri que seria mandado para Leipzig não sabia nada sobre sua história - como, aliás, hoje sei que ainda não estou nem perto de saber. Assim, olhei no mapa da Alemanha para saber onde ficava exatamente a cidade onde iria passar o inverno aprendendo alemão e, como ela fica no leste, foi o bastante para povoar minha imaginação com o caráter pós-stalinista de um lugar que se abriu para o mundo que eu conheço após algumas décadas de ditadura que supostamente instalaria aquilo que eu desejo. Para um estudante de sociologia era um prato cheio, já que representava a oportunidade de conhecer uma cidade que vivenciou - e certamente ainda vivencia - a passagem da versão falida do comunismo para o inerentemente falido capitalismo.

Logo que cheguei, pois, uma das primeiras constatações foi a de quanto esta situação propicia aquilo que se pode chamar de um humos pós-comunista meio involuntário. Afinal, as lembranças das obras do comunismo stalinista ainda estavam bastante sólidas no lugar. E para aqueles que duvidam, basta bater a cabeça em uma porta para ver se é sólida, ou não.


No entanto, e isto é algo que não surpreenderia pessoas espertas, as coisas em Leipzig eram mais antigas do que 1945, como notaria qualquer um avisado de que a cidade tem um nome em latim, Lípsia. Bem mais antigas, para ser exato. Isto porque, sem exatidão nenhuma, dá pra situar o reconhecimento Leipzig como a cidade mais importante da região ainda no século onze, que eu gosto de escrever XI nos meus cadernos. Isso significa, é claro, que me deparei com uma cidade que tinha, por baixo, dez séculos de história mas que na minha imaginação era marcada por apenas 40 destes, o que, de fato, revelou-se bastante acertado. E isto, por si só já é digno de nota (ambas as coisas...).

Ocorre que esta última situação é o primeiro indício de que algo não vai bem, uma vez que a negação do passado recente parece ser mais importante do que os últimos dez séculos. Obviamente aqui não é o caso de querer a idealização destes dez séculos, mas de notar que o que uma ex-grande cidade da Alemanha Oriental (que já era grande antes de ser parte da Alemanha Oriental) faz com sua história durante a ditadura não é um trabalho de resgate da memória, mas sim de expurgo do que aconteceu, a fim de se juntar à nova e poderosa líder da união europeia, a Alemanha unificada. E, claro, não deixa de ser irônico o fato de que a memória do stalinismo também acabou vitimada por expurgos.

Entre os diversos fatos que indicam a opção por este caminho, talvez nada seja tão simbólico quanto o fato de que se busca uma identificação a todo custo com a história dos símbolos do germanismo, como a poesia de Goethe e a música de Wagner. Daí a constante lembrança de que o primeiro estudou em Leipzig (e lá teria escrito o Fausto) e o segundo nasceu ali. E pra quem duvida, isto é lembrado até em guard-rails de obras de trânsito.


O que chama a atenção, então, é como quatro décadas de ditadura acabaram marcando o lugar, que se orgulha de sua luta pela democracia, mas que também procura, numa via de mão dupla, mostrar que Lenin e o comunismo não servem para nada mais que fechar casas já abandonadas enquanto Wagner e a tradição alemã são reivindicados como parte do passado que não se deixou conhecer devido à ditadura.

E é engraçado notar como duas placas despretensiosamente alocadas com o mesmo objetivo, servir de porta ou parede, revelam tanto sobre as pretensões de uma cidade que, a despeito de dez séculos de tradição, parece preferir integrar-se à história vencedora dos últimos trinta anos.

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