sábado, 5 de maio de 2012

É isto a história dos vencedores?

Como já foi dito antes, Leipzig é uma cidade que passou 40 anos do século XX sob ditadura. Em seu caso, foi a ditadura de estado do Partido Socialista Unificado da Alemanha, uma ditadura promovida em nome do comunismo mas que, naturalmente, foi tão somente mais um dos horríveis capítulos entre as diversas tragédias que constituem a história.

Interessante neste caso, é que as ditaduras comunistas, especialmente aquelas instaladas na Europa oriental são regularmente associadas não apenas à supressão de liberdades individuais e à perseguição de opositores, mas também à falta de criatividade e à tentativa de forçar a igualdade entre os cidadãos por meio de medidas como a uniformização da sociedade desde a escola até os empregos, passando por salários e partidos únicos. Daí que as ditaduras stalinistas como a da Alemanha oriental acabam sendo mostradas como governos que transformaram os países em lugares cinzentos e repetitivos. Neste caso, a arquitetura, é claro, acaba sendo um dos exemplos mais visíveis de como esta igualdade forçada, que precisa ser expressa de tal modo que grude no imaginário dos cidadãos, marca o lugar, mesmo trinta anos após o fim da ditadura - afinal, não se pode simplesmente derrubar todos os prédios iguaizinhos construídos pelos comunistas; isso seria, aliás, a mesma socialização da destruição.


Para além do fato de que os automóveis são bisonhamente os mesmos que no Brasil (onde, por sua vez, são todos iguais), o que vale a pena notar é que, novamente pensando em como este lugar parece ter tentado lidar com sua história recente, a "mesmerização" da imagem que se tem dos tempos da ditadura talvez também faça parte daquela tentativa de correr atrás das raízes germânicas que, obviamente, só puderam deixar marcas no oeste. Sem qualquer tipo de "Ostalgia", uma das coisas que sempre ouvi sobre o período de unificação da Alemanha é que, a despeito das imagens de euforia durante a destruição do muro de Berlim que nos chegaram pela TV, muitos alemães orientais e ocidentais não viam com tanto otimismo a onda vitoriosa do oeste.

Pode ser que um dos motivos para isso seja exatamente a tentativa de fazer da Alemanha este país no qual não haveria espaço para o passado comunista da parte oriental do país. Com certeza o exemplo mais escabroso que tive foi, ao visitar o Fórum Histórico Contemporâneo de Leipzig, instituição pública financiada pelo governo alemão, me deparar com uma sessão que mostra como seria a vida da alemã oriental média e do alemão oriental médio na década de 1960. O tom, espalhado por toda a sessão, em forma de casa, era de estranhamento. Uma televisão de tubo, um rádio daqueles do desenho do pica-pau, um sofá com estampa de flores, quadros com fotos da família pendurados na parede, estantes com livros, e tudo o mais que remete à imagem de vida em preto e branco. Algo que beira o desonesto, uma vez que procura mostrar como risível a imagem da família alemã oriental quando, me parece, uma TV de tubo, um rádio pica-pau, um sofá de flores, quadros conservadores e um verniz intelectual talvez fossem bastante comuns, durante os anos 1960, na casa de famílias da ... Alemanha Ocidental!

Ora, fosse eu um morador de Leipzig ou qualquer outra cidade do leste, não ficaria contente com a tentativa de me fazerem parecer um estranho quando tudo o que tentei foi ser igual. Mais que qualquer baboseira sobre as vantagens do comunismo stalinista, talvez o sentimento de pertencimento ao seu próprio passado, que estava prestes a ser destruído, é que tenha feito com que alguns alemães orientais (e ocidentais) tenham ficado com o pé atrás durante a unificação.


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