terça-feira, 20 de dezembro de 2011

É isto a globalização capitalista?

Quando o tubo de pasta de dentes parece o de uma loção de barbas, quando o sal vem em caixinha, quando as sacolas de plástico aguentam uma única ida ao mercado, quando a internet é banda larga mas precisa de um cabo DSL.

Enfim, quando você se sente meio perdido porque não sabe mais como fazer compras!

Ora bolas!


domingo, 18 de dezembro de 2011

É isto a ordem?

Pouco antes de sair do Brasil, ouvi a história de Jan, um alemão que coloca seu despertador para tocar às 7:12. 7 horas e 12 minutos, isso mesmo, número quebrado. Assim como soube que os trens na Alemanha têm horários como 15:14 e, pior, que este horários valem de verdade: marcou 15:14 não é 15:15, baby.

Naturalmente, piadas foram feitas sobre o assunto, ainda que os primeiros dias acordando às 7:00 no frio tenham lançado nova luz sobre aqueles 12 minutos de sono. Mesmo porque, se o cara vai acordar às 7 redondas, virar pro lado e rolar mais alguns minutos na cama, faz muito sentido ele deixar pra dormir sempre esses 12 minutos a mais, já que nesse caso o número quebrado vira inteiro, porque se dorme de uma vez, e outro é aleatório, mas com grandes chances de ser quebrado!

Mas isso foi só uma epifania. Voltando a tratar os doze minutos como quebrados, o que interessa é que eles serviam para fazer uma conta de quanto tempo se precisa para descer as escadas, quanto tempo se leva para tomar banho, e coisas desse tipo. O que, é claro, parece um absurdo, uma vez que não dá pra fazer as coisas todas do mesmo jeito em todos os dias! Eis, porém, que as coisas funcionam por si mesmas e não porque elas servem as pessoas, e este é um aspecto impressionante da Alemanha: se todos os trens, ônibus, metrôs e meios de transporte coletivo têm que cumprir aqueles horários quebrados, eles não podem sofrer com a aleatoriedade de cada dia, de modo que o planejamento dos seus trajetos tem que levar em conta, por exemplo, os momentos em que eles vão passar pelos semáforos, ou seja, o alemão que calcula quanto tempo o trem leva pra chegar em outro lugar tem que conhecer os horários em que os sinais estão abertos ou não, os horários em que o simpático Ampelman aí embaixo diz pra andar ou ficar parado. Isso tudo significa que as máquinas cumprem seus horários e os espertos, como o nosso personagem Jan, percebem que dá pra fazer as contas ao contrário e descobrir que o tempo que te sobra pra não ser racionalizado são aqueles 12 minutos quebrados que formam uma unidade.
























E isso é o tipo de coisa que nunca me passaria pela cabeça: saber que os semáforos têm um horário regular de funcionamento! Entre as coisas bizarras que se fala ou se pensa ao chegar em um lugar diferente e conhecer pessoas novas, pensar sobre o funcionamento dos semáforos não seria uma aposta.

Neste caso, aliás, tudo começou quando deu pra sacar que o semáforo perto de casa fica fechado entre as 7:53 e as 7:55 - ou, de modo mais impressionante, entre as 7:53 baixo e as 7:55 alto, e aposto que baixo e alto aqui não são 10 e 55 segundos, mas 7 e 54 - e depois abre. Se eu chego lá e ele já esta fechado, tenho que esperar até quase 4 para as 8:00 e aí chego atrasado na aula, então entendi que tenho que chegar antes das 7:53:07! Obviamente, nestes momentos aqueles 12 minutos unitários que te dão a tranquilidade de saber que você não vai ficar dois minutos na garoa da manhã olhando para um bonequinho que te pede pra ser exemplo para as crianças e atravessar apenas no verde enquanto seu atraso se torna cada vez mais real são um sonho. E eu me pego pensando que de agora em diante preciso me preparar para chegar ao semáforo antes das 7:53:07...

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

É isto a coincidência? (II)

Nasci em Caconde, uma cidade bem pequena. Tão pequena que, quando foi o tempo, tive de estudar em Guaxupé, uma cidade pouco maior ali perto. Ia de ônibus fretado, mas às vezes voltava sozinho no ônibus de linha ou mesmo de carona, algo fácil da achar, pois as relações entre as duas cidades eram muitas, até por conta da proximidade.

Anos depois, estou em Leipzig, uma cidade entre média e grande. A distância entre Caconde e Leipzig é bem grande, pois vim pra cá de avião e a viagem demorou muito tempo, mesmo sendo o avião um veículo bem rápido. Na verdade, estes dois lugares são tão longe que não vim apenas de avião, mas de carro, avião e trem; se para Guaxupé dava para ir sozinho no ônibus, para cá, não, mesmo porque - é tão longe! - tive que me despedir de muitas coisas, de muita gente. E, então, não vim sozinho.

A relação entre estes dois lugares, sempre imaginei, seria nenhuma, a não ser por mim e meu nome. Na verdade, não haveria porque haver uma relação, eu pensava. E, como não escolhi parar aqui, continuo pensando que não há uma razão clara para que devesse haver uma relação, se esta depende apenas de mim e do meu nome. A não ser que um acontecimento aleatório possa ser uma boa razão, é claro. Mas, neste caso, não me parecia mais do que a vida no aleatório levada a um ponto bastante sério por alguns burocratas. E assim acabei longe de Caconde, pois Leipzig é longe o bastante para que meu próprio nome deixasse de valer alguma coisa que não fosse pessoal. Isto, aliás, fazia com que a relação entre os dois lugares parecesse ainda mais inusitada ou, no mínimo, inverossímil, já que seria um exagero supor que a pequena Caconde e a imagem conservadora que eu fazia dela pudessem representar algo na histórica Leipzig e sua tradição artística e liberal. Seria como pedir a Goethe que ouvisse música sertaneja. E isso significa somente que são universos tão distantes que nem mesmo uma fileira de advérbios poderia expressar isso satisfatoriamente.

Uma imagem conservadora, afinal, implica, de alguma forma, no alheamento do que, de fato, pode não ser conservadorismo, um alheamento do que pode ser comunicação. Desta forma, pois, fui eu mesmo o responsável por limitar a imagem da pequena Caconde e, consequentemente, ser obrigado a abandoná-la. Mas neste caso não seria apropriado fazer o contrário, senão porque Caconde e Leipzig são muito longe, porque entre as generalizações possíveis sobre lugares tão pequenos está a de que nada fora do comum acontece, de que se sabe de tudo. De todos as vidas, de todas as fofocas, de todas as escolhas, de todos os segredos, de todos os caminhos e trajetos.

E a despeito de tudo isso, lá estava ele. Sem que eu pudesse ter imaginado, porque me privara, sem que eu pudesse perguntar, porque ele me privara, sem que eu pudesse saber, enfim. Um saco de café, banal como sempre foram os sacos de café: amarelado como eu sempre vira os sacos de café, com seu cheiro característico de tecido mofado e ressecado como eu sempre sentira nos sacos de café, áspero como eu sempre sentira os sacos de café, e com a marca da cooperativa de café de Caconde, como eu sempre observara nos sacos de café. Ali, em Leipzig, bem em frente à fonte de uma dinastia chinesa qualquer doada pelo governo à cosmopolita Leipzig. Uma barraquinha feita com um saco de estopa que viera de longe, talvez de caminhão ao invés de carro, talvez de navio ao invés de avião, mas que chegara de Caconde até Leipzig e, naquele momento do meu segundo dia nesta cidade, fazia desmoronar muitas das certezas que eu construíra ao longo dos últimos tempos e me mostrava que haviam muitas coisas a esperar.



Reza a lenda, aliás, que em qualquer lugar que exista um cacondense, este encontrará um outro. Naturalmente, os fatos desmentem esta lenda, pois somos menos populosos do que as menores vilas, mas gostamos dela mesmo assim! Ou eu gosto, vá lá...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

É isto a coincidência?


Pra falar da conquista do título brasileiro pelo Corinthians em 2011 a melhor palavra talvez não fosse coincidência, mas sim contradição. A contradição entre a perda do grande Sócrates, gênio da vida e desta sua parte desimportante, o futebol, e a emoção de um título que só ganhou sua beleza pela coincidência de ocorrer no dia daquela morte.

Além disso, a contradição entre o sofrimento e a alegria é constituinte desta relação social que é torcer pelo Corinthians. Claro que isso não foi dito para enfatizar especificidades de um time, ou mesmo para marcar uma diferenciação entre ele e os outros. Isso quem faz, afinal, são os outros, aqueles que propiciaram ao Doutor esta bela homenagem, a de tornar secundário o título nacional de um time de massas, justo ele que insistia que o futebol deve ser visto apenas como aquilo que é, uma parte da vida. Vida que, no seu caso, acabou-se assim, numa coincidência.

sábado, 3 de dezembro de 2011

É isto a Alemanha?

Ah, o velho continente! A Alemanha, berço de tantos grandes nomes, de importantes cientistas, artistas e políticos há séculos e séculos. As casinhas de telhado triangular no meio da cidade, as construções antigas, os ciclistas e motoristas respeitando seus lugares na rua, as pessoas esperando o sinal abrir para atravessas a rua, a ordem e o oposto da malemolência brasileira...

Sim, dá pra ver tudo isso e também que as coisas são bem mais complicadas do que parecem. Por algum motivo que ainda precisaria ser explicado, as pessoas parecem ser pouco mais do que seus estereótipos, o que faz da vida, em qualquer lugar, um pouco mais difícil do que naqueles planos em que a gente imagina como seriam as respostas que as pessoas dariam às nossas perguntas para poder pensar numa situação inteira sob nosso controle. Por isso, talvez, o mais impressionante - junto com alguns detalhes da engenharia doméstica - tenha sido descobrir que não existe um choque gigantesco assim que se chega em um novo lugar. Dia 24 estava no Brasil, dia 25 na Alemanha, perdi onze horas espremido no avião, três horas de vida no fuso horário e alguma curiosidade, mas o resto é a mesma coisa.



E, justamente por ser a mesma coisa, é tão difícil não amolecer num espaço tão curto de tempo. Como disse o Bob, é na primeira semana que você chega com um ritmo externo e sente um estranhamento gigantesco. Talvez seja mesmo o caso de tirar conclusões precipitadas, mesmo porque assim parece possível encontrar um chão no qual se apoiar e mesmo que elas sirvam apenas para ser destruídas aos poucos depois. Por isso, a primeira conclusão é a de que tudo é diferente em todo lugar e isso é a mesma coisa sempre. Assim, parece que as coisas na Alemanha são coisas conhecidas, como as coisas que são em todos os lugares para quem sabe o que são elas. O chá de hortelã, por exemplo, continua a ser o melhor chá do mundo.

Mas o impressionante é que isso também não é verdade. As coisas são diferentes ou, pelo menos, vão se tornar diferentes à medida em que elas assumirem seu lugar, que não é o de um ponto final, mas o de um começo no qual as especificidades delas também tem que ser descobertas. No fim das contas, a normalidade é a regra, mas é a sua especificidade que interessa descobrir, ainda que seja doloroso perceber que tudo começou de novo, que tantas coisas novas vão acontecer numa vida já tão velha. E pode ser que este seja o ponto central: às vezes a vida volta a te dar primeiras semanas, nas quais você não pode chegar em casa mau-humorado e conversar, xingar, ser grosseiro, jogar video-game, dar risadas fingidas até rir de verdade, essas coisas. A primeira semana é aquela onde você tem mesmo que chorar, que se impressionar, errar, insistir, brigar, perder o medo e a vergonha, e expressar isso tudo sem vergonha nenhuma para quem estava presente nas semanas anteriores a esta primeira. E apenas por coincidência isto acontece na Alemanha, afinal.

O que é isto?

Após um empurrãozinho de quem sabe, está decidido: vou escrever um blog e fazer mais sucesso que o João Ubaldo Ribeiro. João, como se sabe, é um cara pretensioso que, tendo recebido uma bolsa do DAAD (pronuncia-se Dê A Dê), órgão alemão de financiamento de intercâmbios de estrangeiros, passou a escrever crônicas para jornais alemães que, ao fim e ao cabo, transformaram-se em um livro sobre um brasileiro em Berlim, ou algo que o valha. Resolvi, além disso, não cair na onda de dar moral à concorrência. João, esse cronista de quem falei, se quiser, que fale de mim. Também está decidido. Bye, bye João. Ou melhor, Auf wiedersehen.

As coisas, porém, começam um pouco piores para mim. Ainda que o talento seja enorme, falta-me a bolsa de que João dispôs. E Berlim também. Vender estórias de um brasileiro em Leipzig não parece um empreendimento fadado ao sucesso editorial, afinal. Mas é o que temos. No mais, José Ubaldo Ribeiro, acho que era esse o nome, poupou-me o trabalho de descrever com leveza e acidez os sofrimentos em um avião no qual os brancos de aparência alemã podem esticar suas pernas enquanto tomam champanhe e os outros têm o prazer de abraçar seus vizinhos, esmagá-los, roçar as pernas nas deles e, com isso, trazer aquele pedaço do Brasil - e da pele, dos cabelos e da saliva do vizinho - para a Alemanha, e tudo sem imposto. Quem quiser relatos de viagem que leia o seu livro. Aqui, graças à limpeza de terreno de nosso amigo aí de cima, coisas mais importantes podem ser tratadas, sempre de maneira esclarecedora, respondendo às perguntas necessárias e digitando do modo mais organizado possível as impressões e dúvidas que aparecerem. Este blog, começa, pois, fora do avião, já instalado na antiga Alemanha Oriental, em Leipzig.

Ao contrário de João Ribeiro Ubaldo, este tipo de mercenário das palavras, darei uma banana às editoras e contarei apenas com a crítica devastadora dos amigos - já que os vermes não podem roer impressões digitalizadas. E assim ainda evito participar da indústria cultural. Caconde é foda, não?

Como, aliás, é foda começar tudo de novo, em um lugar diferente.