terça-feira, 13 de dezembro de 2011

É isto a coincidência? (II)

Nasci em Caconde, uma cidade bem pequena. Tão pequena que, quando foi o tempo, tive de estudar em Guaxupé, uma cidade pouco maior ali perto. Ia de ônibus fretado, mas às vezes voltava sozinho no ônibus de linha ou mesmo de carona, algo fácil da achar, pois as relações entre as duas cidades eram muitas, até por conta da proximidade.

Anos depois, estou em Leipzig, uma cidade entre média e grande. A distância entre Caconde e Leipzig é bem grande, pois vim pra cá de avião e a viagem demorou muito tempo, mesmo sendo o avião um veículo bem rápido. Na verdade, estes dois lugares são tão longe que não vim apenas de avião, mas de carro, avião e trem; se para Guaxupé dava para ir sozinho no ônibus, para cá, não, mesmo porque - é tão longe! - tive que me despedir de muitas coisas, de muita gente. E, então, não vim sozinho.

A relação entre estes dois lugares, sempre imaginei, seria nenhuma, a não ser por mim e meu nome. Na verdade, não haveria porque haver uma relação, eu pensava. E, como não escolhi parar aqui, continuo pensando que não há uma razão clara para que devesse haver uma relação, se esta depende apenas de mim e do meu nome. A não ser que um acontecimento aleatório possa ser uma boa razão, é claro. Mas, neste caso, não me parecia mais do que a vida no aleatório levada a um ponto bastante sério por alguns burocratas. E assim acabei longe de Caconde, pois Leipzig é longe o bastante para que meu próprio nome deixasse de valer alguma coisa que não fosse pessoal. Isto, aliás, fazia com que a relação entre os dois lugares parecesse ainda mais inusitada ou, no mínimo, inverossímil, já que seria um exagero supor que a pequena Caconde e a imagem conservadora que eu fazia dela pudessem representar algo na histórica Leipzig e sua tradição artística e liberal. Seria como pedir a Goethe que ouvisse música sertaneja. E isso significa somente que são universos tão distantes que nem mesmo uma fileira de advérbios poderia expressar isso satisfatoriamente.

Uma imagem conservadora, afinal, implica, de alguma forma, no alheamento do que, de fato, pode não ser conservadorismo, um alheamento do que pode ser comunicação. Desta forma, pois, fui eu mesmo o responsável por limitar a imagem da pequena Caconde e, consequentemente, ser obrigado a abandoná-la. Mas neste caso não seria apropriado fazer o contrário, senão porque Caconde e Leipzig são muito longe, porque entre as generalizações possíveis sobre lugares tão pequenos está a de que nada fora do comum acontece, de que se sabe de tudo. De todos as vidas, de todas as fofocas, de todas as escolhas, de todos os segredos, de todos os caminhos e trajetos.

E a despeito de tudo isso, lá estava ele. Sem que eu pudesse ter imaginado, porque me privara, sem que eu pudesse perguntar, porque ele me privara, sem que eu pudesse saber, enfim. Um saco de café, banal como sempre foram os sacos de café: amarelado como eu sempre vira os sacos de café, com seu cheiro característico de tecido mofado e ressecado como eu sempre sentira nos sacos de café, áspero como eu sempre sentira os sacos de café, e com a marca da cooperativa de café de Caconde, como eu sempre observara nos sacos de café. Ali, em Leipzig, bem em frente à fonte de uma dinastia chinesa qualquer doada pelo governo à cosmopolita Leipzig. Uma barraquinha feita com um saco de estopa que viera de longe, talvez de caminhão ao invés de carro, talvez de navio ao invés de avião, mas que chegara de Caconde até Leipzig e, naquele momento do meu segundo dia nesta cidade, fazia desmoronar muitas das certezas que eu construíra ao longo dos últimos tempos e me mostrava que haviam muitas coisas a esperar.



Reza a lenda, aliás, que em qualquer lugar que exista um cacondense, este encontrará um outro. Naturalmente, os fatos desmentem esta lenda, pois somos menos populosos do que as menores vilas, mas gostamos dela mesmo assim! Ou eu gosto, vá lá...

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