domingo, 22 de abril de 2012

É isto o estranhamento?

O bom e velho Belchior dizia conhecer seu lugar, mesmo estando a muito tempo longe de casa. Eu que estou a bem pouco tempo por aqui e devo ser muito menos esperto do que ele - ainda que use bigode de vez em quando - sei menos ainda do que ele.



E, sem surpresa nenhuma, longe de casa sei ainda menos do que eu saberia lá nos trópicos. Talvez por isso eu me sinta tão a vontade em falar sobre coisas que eu não sei, especialmente sobre o meu país, porque eu posso até saber bem pouco, mas pelo menos eu vivi lá, e aí posso narrar as coisas do jeito que eu as entendo. Isso é muito diferente do que acontece aqui, já que, antes de mais nada, nunca vivi nada na Alemanha e nem sei como as coisas funcionam. Uma pedra no meu caminho pode ser qualquer coisa, que pode ser uma pedra no meio do caminho.

A primeira coisa com a qual sente-se este tipo de dificuldade, é claro, é a língua, pois é uma sensação horrível e desesperadora a de que tudo que se faz é antes intuitivo do que consciente. Mas, com o tempo, mesmo o fazer coisas de modo intuitivo começa a dar um certo orgulho, porque parece que já não se está tão perdido: parece que se aprendeu algo: correr para pegar um trem antes de comprar a passagem enquanto se procura o adesivo de que ali dentro do próprio trem há uma máquina de bilhetes significa que já se aprendeu, ao menos, que existem estas máquinas, que existe um adesivo avisando sobre isto, que se pode apertar um botão para abrir a porta do trem... E tudo isso pode-se aprender só observando, ou seja, sem trocar uma palavra com um nativo, o que talvez signifique que o problema da língua pode mesmo ser contornado pela atenção.

O que é uma pena, afinal, dada a enorme riqueza que se perde nisso. Um dos grandes exemplos disso, novamente é claro, é a língua. Daí que uma das mais interessantes e decepcionantes experiências que ocorreram foi a leitura de um poema. Num seminário na sala sobre algo de meu país resolvi falar sobre o poeta que era funcionário público, Carlos Drummond de Andrade, e ler uma tradução para o alemão de "E agora, José?". Qual ingenuidade!

O quê, afinal, significa "José" para não brasileiros? O quê, afinal, significa a ideia de ser funcionário público para não brasileiros? O quê, afinal, significa viver em busca de algo para pessoas que são não brasileiros? E, afinal, o quê significa o próprio ser "não-brasileiro" quando todos os que não são brasileiros o são?

Em meio a tudo isso, para mim, foi significativo ler "E agora, José?" em público e não compartilhar emoções ou ouvir um disco do Belchior e não poder discutir com ninguém se ele é só um louco ou só um gênio, pois, assim como no trem, a própria língua foi o bastante para nos jogar de novo na posição do estrangeiro.

3 comentários:

  1. Irmão, gostei das idéias e mais ainda da foto. Sabe que você tá parecendo um cacique da terra brasilis!?

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  2. Por que a sensação de que fazemos as coisas de forma intuitiva e não consciente é horrível e desesperadora? Senação de perda de controle?

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    1. Parece um caminho promissor para a resposta. Mas, pergunto eu, estas duas não são sensações diferentes? E, se forem mesmo, dá para perder o controle sem desespero? E, se não forem, esta é a única possibilidade?

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