domingo, 18 de dezembro de 2011

É isto a ordem?

Pouco antes de sair do Brasil, ouvi a história de Jan, um alemão que coloca seu despertador para tocar às 7:12. 7 horas e 12 minutos, isso mesmo, número quebrado. Assim como soube que os trens na Alemanha têm horários como 15:14 e, pior, que este horários valem de verdade: marcou 15:14 não é 15:15, baby.

Naturalmente, piadas foram feitas sobre o assunto, ainda que os primeiros dias acordando às 7:00 no frio tenham lançado nova luz sobre aqueles 12 minutos de sono. Mesmo porque, se o cara vai acordar às 7 redondas, virar pro lado e rolar mais alguns minutos na cama, faz muito sentido ele deixar pra dormir sempre esses 12 minutos a mais, já que nesse caso o número quebrado vira inteiro, porque se dorme de uma vez, e outro é aleatório, mas com grandes chances de ser quebrado!

Mas isso foi só uma epifania. Voltando a tratar os doze minutos como quebrados, o que interessa é que eles serviam para fazer uma conta de quanto tempo se precisa para descer as escadas, quanto tempo se leva para tomar banho, e coisas desse tipo. O que, é claro, parece um absurdo, uma vez que não dá pra fazer as coisas todas do mesmo jeito em todos os dias! Eis, porém, que as coisas funcionam por si mesmas e não porque elas servem as pessoas, e este é um aspecto impressionante da Alemanha: se todos os trens, ônibus, metrôs e meios de transporte coletivo têm que cumprir aqueles horários quebrados, eles não podem sofrer com a aleatoriedade de cada dia, de modo que o planejamento dos seus trajetos tem que levar em conta, por exemplo, os momentos em que eles vão passar pelos semáforos, ou seja, o alemão que calcula quanto tempo o trem leva pra chegar em outro lugar tem que conhecer os horários em que os sinais estão abertos ou não, os horários em que o simpático Ampelman aí embaixo diz pra andar ou ficar parado. Isso tudo significa que as máquinas cumprem seus horários e os espertos, como o nosso personagem Jan, percebem que dá pra fazer as contas ao contrário e descobrir que o tempo que te sobra pra não ser racionalizado são aqueles 12 minutos quebrados que formam uma unidade.
























E isso é o tipo de coisa que nunca me passaria pela cabeça: saber que os semáforos têm um horário regular de funcionamento! Entre as coisas bizarras que se fala ou se pensa ao chegar em um lugar diferente e conhecer pessoas novas, pensar sobre o funcionamento dos semáforos não seria uma aposta.

Neste caso, aliás, tudo começou quando deu pra sacar que o semáforo perto de casa fica fechado entre as 7:53 e as 7:55 - ou, de modo mais impressionante, entre as 7:53 baixo e as 7:55 alto, e aposto que baixo e alto aqui não são 10 e 55 segundos, mas 7 e 54 - e depois abre. Se eu chego lá e ele já esta fechado, tenho que esperar até quase 4 para as 8:00 e aí chego atrasado na aula, então entendi que tenho que chegar antes das 7:53:07! Obviamente, nestes momentos aqueles 12 minutos unitários que te dão a tranquilidade de saber que você não vai ficar dois minutos na garoa da manhã olhando para um bonequinho que te pede pra ser exemplo para as crianças e atravessar apenas no verde enquanto seu atraso se torna cada vez mais real são um sonho. E eu me pego pensando que de agora em diante preciso me preparar para chegar ao semáforo antes das 7:53:07...

Um comentário:

  1. amei o texto. e a forma como vc fez os minutos quebrados virarem um unidade.

    beijos.

    ResponderExcluir